Get Back, Jojo

50 anos depois, voltamos a olhar para os últimos anos de vida em conjuntos dos Beatles. O documentário de Peter Jackson (sim, o mesmo do Senhor dos Anéis) que estreou na Disney+ trouxe mais conversas sobre os rapazes. Aproveitei para convidar o músico e compositor Miguel Araújo para deixar algumas linhas sobre Get Back.


Começo com uma declaração de interesses: preferindo mas não preterindo, sou mais McCartney que Lennon, sou mais Beatles 1962-1966 do que Beatles 1967-1970.


O Get Back documenta os Beatles a tentar voltar aos primeiros anos deste calendário que tem por charneira a morte do Brian Epstein e a subsequente perda de interesse de Lennon pela banda, dando lugar a um novo líder oficioso. Mostra o quanto os Beatles já não conseguiam nem sabiam ser essa banda. Vê-se na forma como eles parodiam as suas próprias músicas antigas. O mundo tinha mudado, a cultura tinha mudado, as cores e as roupas e os cabelos eram já outros. A música era outra.

Como qualquer fã dos Beatles, eu daria um braço para ver estas horas todas de documentário sobre por exemplo o “Beatles For Sale”. Talvez seja esse o disco que tem a maior quantidade de canções da minha predileção. Adoraria ter acesso ao processo. Será que teria sido tão custoso? Suspeito que sim. Qualquer fã mais atento já reparou em alguns pormenores que foram sendo deixados na extensa literatura que há sobre os 4 de Liverpool. No Anthology pode-se ver pormenores como por exemplo “take 68”. 68 takes. Dá trabalho, é difícil soar tão fácil. É penoso, custoso, moroso, é complicado soar tão simples. Exige muita técnica e repetição corriqueira fazer soar tão milagroso e tão mágico. Suspeito que seja assim sempre, em qualquer área da criatividade.

É o que se aprende com o Get Back: ninguém disse que isto era fácil. Quase sempre nunca é. A maioria das vezes o que se encontram são vazios, becos sem saída, tocas de coelho. Não importa o tempo que demora o trabalho, se demora um ano ou um dia. Menos ainda neste caso, em que a obra, não sendo eterna, produz efeitos que serão para sempre.

Miguel Araújo
5 Jan 2022


Quem tiver dúvidas sobre a paixão que o Miguel tem com os Beatles, recomendo ouvirem em particular o disco conjunto que fez com o João Só intitulado “Mendes e João Só”

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