Pensei muito antes de escrever este texto, mas é difícil ficar calado quando vejo aquilo que a Carolina Deslandes tem dito nas últimas semanas.
Para quem lida com música, foi quase impossível não ler as declarações da Carolina sobre os Play – Os Prémios da Música Portuguesa (seja no IG, seja na recente entrevista à Magg). Mas para quem não viu, começo por deixar aqui o post que ela deixou no IG.
Mas se calhar é preciso enquadrar, antes de começar a entrar em pormenor.
A Carolina foi a responsável pelo momento de abertura pelos prémios Play (que vale a pena ver aqui) e inclusivamente estava nomeada para Melhor Artistas Feminina, prémio que foi entregue à Capicua.
E começo por pegar num ponto em concreto. Ela queixa-se que “a indústria da música é profundamente snob com a música pop….” Aquilo que ela quer dizer é que as pessoas que votaram nos prémios são snob. E talvez por isso me tenha sentido picado.
E porquê? Porque eu já fiz parte do júri que atribui os Prémios Play.
Mas aquilo que podia ter sido apenas um desabafo dito no calor do momento depois de perder um prémio (e percebo que não seja fácil perder, eu detesto perder a jogar FIFA contra os meus filhos), mas não foi. A Carolina continuou a falar na “falta de justiça” nos prémios, mesmo passado algumas semanas, como se pode ler na recente entrevista à Magg.
A Carolina, no momento que voltou aos concertos, volta a falar dos prémios e de uma parte da indústria da música em Portugal. Mais concretamente a franja que ela chama de indie, ou aquilo que eu mais gostei e passo a citar “um festival da Antena 3” (disclaimer – fiz parte da equipa da Antena 3 durante muitos e bons anos).
Começo por dizer que acredito que este é um momento de união, e não de ataques e de criar fossos entre aquilo que ela chama de música pop e indie (ou seja o que for). Este é um momento onde quase todos os artistas ficaram sem tocar, sem pisar um palco, sem ter o público à frente. Há quem seja fã da “guerra” que houve entre Blur e Oasis em Inglaterra e que fez vender muitos discos e muita tinta nos jornais. Mas neste caso, apenas parece que é mau perder. Ou como escrevi no título, um tantrum.
Depois, diria que a Carolina tem uma visão adulterada do que são estes prémios (e não, não é um festival). Estes prémios são escolhidos por uma academia e que tem os nomes publicados no site (podem ver aqui). E a academia que escolheu este ano os prémios tem gente tão diversa managers, técnicos, produtores, promotores e gestores, mas também artistas como a Ana Bacalhau, Camané, Diogo Piçarra e inclusivamente o ex-marido da Carolina, o Diogo Clemente, entre outros. Basicamente, está a chamar os seus pares e as pessoas que trabalham com ela de snob…
Ainda gostava de dizer que a atribuição de prémios é sempre um momento de “surpresas” (quem diria que em 2015 os Royal Blood iam ganhar o prémio de Melhor Grupo nos Brit Awards à frente de Coldplay ou One Direction?!).
Gostava ainda de dizer que visto daqui, a Carolina está a refilar de barriga cheia. Sim. Ela é uma das artistas mais tocadas na rádio, tem dezenas de concertos ao ano, está no tops dos spotifys e afins, é presença regular na televisão…. e de repente porque não recebeu um prémio, vem reclamar que existe um snobismo e que não existe justiça… Não compreendo.
Para terminar, gostava de deixar uma reflexão. Quem precisa ou tem mais a ganhar com este tipo de prémios? Uma artista consagrada ou alguém que ainda não chegou à RFM ou Comercial, não foi convidado para estar no horário nobre na televisão, nem tem centenas de milhares de seguidores nas redes e que por isso tudo dá apenas uns 20 ou 30 concertos por ano?
Mas na realidade é uma questão de mérito e de gosto. Neste caso, mérito dos artistas e das suas equipa e o gosto dos diversos membros da academia que votam e que conhecendo a vasta maioria, tem mais do que curriculum para validar as escolhas que foram feitas. Ainda acrescento que vi estes prémios a surgir, com muito custo e luta de todos os envolvidos, e que me parece um total disparate estar a fazer este tipo de declarações que podem desvalorizar o caminho que está a ser feito, e bem feito.
Talvez o problema seja com a Carolina, e que devia ter pensado:
És uma artista com talento e não precisas desta massagem ao ego, nem do prémio. Talvez até diria que não mereceste. Mas devias ser maior que isso, e estar a lutar pela classe dos músicos (sejam de que género for) e não entrar nestes disparates.

Excelente reflexão. Boa conclusão.
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